Nosso planeta precisa urgentemente de uma alternativa sustentável, resiliente e equitativa à agricultura industrial. Agroecologia.

A agroecologia não é uma invenção nova. Ela surgiu dos sistemas alimentares dos povos indígenas e tem sido encontrada na literatura científica desde meados do século XX. Mais recentemente, ela encontrou expressão nas práticas dos agricultores familiares, nos movimentos sociais de base pela equidade e sustentabilidade e nas políticas públicas de vários países do mundo. Atualmente, a agroecologia é adotada por muitos governos, agências internacionais de desenvolvimento e instituições da ONU.

A agroecologia é fundamentalmente diferente de outras abordagens ao desenvolvimento sustentável. Ela se baseia em processos territoriais e de baixo para cima, ajudando a fornecer soluções contextualizadas para problemas locais. As inovações agroecológicas são baseadas na cocriação de conhecimento, combinando a ciência com o conhecimento tradicional, prático e local dos produtores. Ao favorecer a soberania alimentar e a capacidade de adaptação, a agroecologia capacita os produtores e as comunidades como principais agentes de mudança.

Em vez de ajustar as práticas de sistemas agrícolas insustentáveis, a agroecologia busca uma abordagem de transformação em todo o sistema, abordando questões complexas como mudanças climáticas, má nutrição e concentração corporativa. A agroecologia dá grande ênfase aos direitos das mulheres, dos jovens e dos povos indígenas. A agroecologia é uma solução comprovada para criar meios de subsistência e sistemas alimentares resistentes ao clima. *FAO

Em 2019, o Painel de Especialistas de Alto Nível em Segurança Alimentar e Nutricional (HLPE) publicou os 13 princípios da agroecologia.

O HLPE é uma interface ciência-política do Comitê de Segurança Alimentar Mundial (CFS) da ONU, encomendado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Os 13 Princípios são cada vez mais aceitos como um roteiro para a transformação holística dos sistemas alimentares, inclusive pelo Fundo de Agroecologia.

Co-criação de conhecimento

Aprimorar a co-criação e o compartilhamento horizontal de conhecimento, incluindo inovação local e científica, especialmente por meio do intercâmbio entre agricultores

Valores sociais e dietas

Construir sistemas alimentares baseados na cultura, identidade, tradição, equidade social e de gênero das comunidades locais, que proporcionem dietas saudáveis, diversificadas, sazonais e culturalmente adequadas.

Equidade

Apoiar meios de subsistência dignos e sólidos para todos os atores envolvidos nos sistemas alimentares, especialmente os pequenos produtores de alimentos, com base no comércio justo, no emprego justo e no tratamento justo dos direitos de propriedade intelectual.

Conectividade

Garantir a proximidade e a confiança entre produtores e consumidores através da promoção de redes de distribuição justas e curtas e da reintegração dos sistemas alimentares nas economias locais.

Governança da terra e dos recursos naturais

Fortalecer os arranjos institucionais para melhorar, incluindo o reconhecimento e o apoio aos agricultores familiares, pequenos proprietários e produtores rurais de alimentos como gestores sustentáveis dos recursos naturais e genéticos.

Participação

Incentivar a organização social e uma maior participação na tomada de decisões por parte dos produtores e consumidores de alimentos, a fim de apoiar a governança descentralizada e a gestão adaptativa local dos sistemas agrícolas e alimentares.

Reciclagem

Utilizar preferencialmente recursos renováveis locais e fechar, na medida do possível, os ciclos de recursos de nutrientes e biomassa.

Redução de insumos

Reduzir ou eliminar a dependência de insumos adquiridos e aumentar a autossuficiência.

Saúde do solo

Garantir e melhorar a saúde e o funcionamento do solo para melhorar o crescimento das plantas, particularmente através da gestão da matéria orgânica e do aumento da atividade biológica do solo.

Saúde animal

Garantir a saúde e o bem-estar dos animais.

Biodiversidade

Manter e aumentar a diversidade de espécies, a diversidade funcional e os recursos genéticos, preservando assim a biodiversidade geral do agroecossistema no tempo e no espaço, em escala de campo, fazenda e paisagem.

Sinergias

Aumentar a interação ecológica positiva, a sinergia, a integração e a complementaridade entre os elementos dos agroecossistemas (animais, culturas, árvores, solo e água).

Diversificação econômica

Diversificar as receitas agrícolas, garantindo que os pequenos agricultores tenham maior independência financeira e oportunidades de agregação de valor, permitindo-lhes responder à demanda dos consumidores.

A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável exige uma nova abordagem agrícola para garantir alimentos suficientes, seguros e nutritivos, respeitando os direitos humanos. Os membros da FAO têm uma visão comum para alimentos e agricultura sustentáveis, e a agroecologia é uma resposta fundamental para orientar a transformação sustentável de nossos sistemas alimentares.

A implementação de princípios enraizados na agroecologia promove 15 dos 17 ODSs.

Sem pobreza

A agricultura familiar, a pecuária e a pesca e aquicultura artesanais proporcionam meios de subsistência para muitas das populações rurais pobres do mundo. As abordagens agroecológicas ajudam os produtores de alimentos a reduzir os custos de produção, o que se traduz em maior renda, estabilidade econômica e resiliência.

Fome zero

Os sistemas agroecológicos otimizam o uso de recursos e conhecimentos locais e renováveis. Isso permite que os sistemas de produção agrícola aproveitem os benefícios do ecossistema, como controle de pragas, polinização, saúde do solo e controle da erosão, ao mesmo tempo em que garantem a produtividade. A conservação e o uso sustentável da biodiversidade levam a serviços ecossistêmicos robustos e à agricultura sustentável.

Boa saúde e bem-estar

Ao minimizar o uso de insumos agroquímicos potencialmente nocivos, a agroecologia reduz os efeitos negativos da agricultura sobre a saúde humana e ambiental. Ao relocalizar as dietas, a agroecologia pode ajudar a informar dietas sustentáveis e saudáveis.

Educação de qualidade

A agroecologia depende do conhecimento adaptado aos contextos locais pelos produtores de alimentos e outros atores. Ela fornece conhecimento relevante e prático por meio do empoderamento de sistemas entre pares, aprimorados com o conhecimento de cientistas formais.

Igualdade de gênero

As mulheres têm um papel central na agroecologia. Elas são frequentemente guardiãs de dietas saudáveis e tradicionais e são atores fundamentais em sistemas alimentares sustentáveis, desde o lar até o campo, o mercado e além. A agroecologia tem o potencial de promover os direitos, a autodeterminação e a autonomia das mulheres.

Água potável e saneamento

A agroecologia previne a poluição e a contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Ela promove práticas eficientes no uso da água, melhora a retenção de água no solo e valoriza culturas adaptadas localmente que requerem menos (ou nenhuma) irrigação, permitindo um armazenamento, recuperação e recarga mais seguros e sustentáveis dos aquíferos.

Trabalho decente e crescimento econômico

As abordagens agroecológicas criam novas oportunidades de emprego rural decente para jovens e mulheres. O aumento da resiliência dos sistemas de produção agroecológicos ajuda a manter melhor os empregos existentes, apoiando os meios de subsistência e as comunidades rurais.

Redução das desigualdades

A agroecologia dá prioridade aos setores mais marginalizados e vulneráveis da sociedade: mulheres rurais, jovens, agricultores familiares e povos indígenas. A agroecologia tem o potencial de abordar a desigualdade do sistema alimentar, fornecendo soluções locais para contextos e territórios específicos.

Cidades e comunidades sustentáveis

Ao promover uma abordagem territorial ao desenvolvimento, a agroecologia incentiva o desenvolvimento de planos integrados para o desenvolvimento urbano e rural, com as áreas urbanas reconhecendo os múltiplos benefícios que as paisagens sustentáveis podem proporcionar e reconectando produtores e consumidores para encurtar as cadeias de valor e aumentar a resiliência.

Consumo e produção responsáveis

A agroecologia promove a diversificação para alcançar dietas sustentáveis e saudáveis e segurança alimentar e nutricional. Os sistemas alimentares agroecológicos provaram, em muitos contextos locais, ser fornecedores exemplares de dietas nutritivas, saudáveis e adequadas de alta qualidade, preservando e promovendo as tradições alimentares locais e o conhecimento tradicional. Ao encurtar as cadeias de valor, a agroecologia contribui para a redução das perdas e do desperdício de alimentos.

Ação climática

A agroecologia ajuda a mitigar as mudanças climáticas e seus impactos. Ela reduz a emissão de gases de efeito estufa, promovendo sistemas de produção integrados que são menos dependentes da energia proveniente de combustíveis fósseis e que armazenam e fixam carbono. Ao promover sistemas de produção diversificados e integrados, a agroecologia facilita a resiliência e a adaptação às mudanças climáticas.

Vida abaixo da água

Nos sistemas aquáticos, a Abordagem Ecossistêmica da Pesca (AEP) e da aquicultura (AEA) demonstra uma abordagem agroecológica. A Abordagem Ecossistêmica garante que a gestão dos recursos vivos aplique uma abordagem integrada à pesca dentro de limites significativos, levando em consideração o conhecimento e as incertezas nos componentes bióticos, abióticos e humanos.

Vida em terra

A agroecologia trabalha com comunidades locais, produtores de alimentos e outros atores para prevenir a degradação da terra e restaurar áreas degradadas. A agroecologia ajuda a conservar, usar de forma sustentável e valorizar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que sustentam a produção de alimentos.

Paz, Justiça e Instituições Fortes

A agroecologia apoia organizações de produtores fortes e inclusivas que permitem o compartilhamento e a cocriação de conhecimento, solidariedade, representação de suas preocupações no nível político e governança responsável.

Parcerias

A ampliação da agroecologia exige maior cooperação entre setores produtivos, atores sociais e países.

*FAO

História de Kelle Gregory

A Ghanaian Farmer’s View of Agroecology (Visão de um agricultor de Gana sobre a agroecologia).

Financiada em parte pelo Agroecology Fund, a CIKOD é uma afiliada de nossa parceira de longa data, a Groundswell West Africa, e se aliou a uma coalizão de ONGs de Gana para bloquear a legislação pró-OGM, permitindo que os agricultores mantenham o controle sobre suas sementes. Para expandir sua influência, a CIKOD uniu-se à African Food Sovereignty Alliance, por meio da qual agricultores organizados em toda a África buscam influenciar a política da União Africana e os planos de clima e biodiversidade dos governos nacionais, à medida que expandem e disseminam a agroecologia em todo o continente.