Nosso planeta precisa urgentemente de uma alternativa sustentável, resiliente e equitativa à agricultura industrial. Agroecologia.
O que é agroecologia?
A agroecologia é uma abordagem integrada que aplica simultaneamente conceitos e princípios ecológicos e sociais ao projeto e ao gerenciamento de sistemas agrícolas e de alimentos. Dentro de uma estrutura de justiça e direitos, ela busca minimizar os insumos externos e otimizar as interações sustentáveis entre plantas, animais, seres humanos e o ambiente em geral.
A agroecologia não é uma invenção nova. Ela surgiu dos sistemas alimentares dos povos indígenas e tem sido encontrada na literatura científica desde meados do século XX. Mais recentemente, ela encontrou expressão nas práticas dos agricultores familiares, nos movimentos sociais de base pela equidade e sustentabilidade e nas políticas públicas de vários países do mundo. Atualmente, a agroecologia é adotada por muitos governos, agências internacionais de desenvolvimento e instituições da ONU.
A agroecologia é fundamentalmente diferente de outras abordagens ao desenvolvimento sustentável. Ela se baseia em processos territoriais e de baixo para cima, ajudando a fornecer soluções contextualizadas para problemas locais. As inovações agroecológicas são baseadas na cocriação de conhecimento, combinando a ciência com o conhecimento tradicional, prático e local dos produtores. Ao favorecer a soberania alimentar e a capacidade de adaptação, a agroecologia capacita os produtores e as comunidades como principais agentes de mudança.
Em vez de ajustar as práticas de sistemas agrícolas insustentáveis, a agroecologia busca uma abordagem de transformação em todo o sistema, abordando questões complexas como mudanças climáticas, má nutrição e concentração corporativa. A agroecologia dá grande ênfase aos direitos das mulheres, dos jovens e dos povos indígenas. A agroecologia é uma solução comprovada para criar meios de subsistência e sistemas alimentares resistentes ao clima. *FAO

Os 13 princípios-chave da agroecologia
O HLPE é uma interface ciência-política do Comitê de Segurança Alimentar Mundial (CFS) da ONU, encomendado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Os 13 Princípios são cada vez mais aceitos como um roteiro para a transformação holística dos sistemas alimentares, inclusive pelo Fundo de Agroecologia.
Co-criação de conhecimento
Aprimorar a co-criação e o compartilhamento horizontal de conhecimento, incluindo inovação local e científica, especialmente por meio do intercâmbio entre agricultores
Valores sociais e dietas
Construir sistemas alimentares baseados na cultura, identidade, tradição, equidade social e de gênero das comunidades locais, que proporcionem dietas saudáveis, diversificadas, sazonais e culturalmente adequadas.
Equidade
Apoiar meios de subsistência dignos e sólidos para todos os atores envolvidos nos sistemas alimentares, especialmente os pequenos produtores de alimentos, com base no comércio justo, no emprego justo e no tratamento justo dos direitos de propriedade intelectual.
Conectividade
Garantir a proximidade e a confiança entre produtores e consumidores através da promoção de redes de distribuição justas e curtas e da reintegração dos sistemas alimentares nas economias locais.
Governança da terra e dos recursos naturais
Fortalecer os arranjos institucionais para melhorar, incluindo o reconhecimento e o apoio aos agricultores familiares, pequenos proprietários e produtores rurais de alimentos como gestores sustentáveis dos recursos naturais e genéticos.
Participação
Incentivar a organização social e uma maior participação na tomada de decisões por parte dos produtores e consumidores de alimentos, a fim de apoiar a governança descentralizada e a gestão adaptativa local dos sistemas agrícolas e alimentares.
Reciclagem
Utilizar preferencialmente recursos renováveis locais e fechar, na medida do possível, os ciclos de recursos de nutrientes e biomassa.
Redução de insumos
Reduzir ou eliminar a dependência de insumos adquiridos e aumentar a autossuficiência.
Saúde do solo
Garantir e melhorar a saúde e o funcionamento do solo para melhorar o crescimento das plantas, particularmente através da gestão da matéria orgânica e do aumento da atividade biológica do solo.
Saúde animal
Garantir a saúde e o bem-estar dos animais.
Biodiversidade
Manter e aumentar a diversidade de espécies, a diversidade funcional e os recursos genéticos, preservando assim a biodiversidade geral do agroecossistema no tempo e no espaço, em escala de campo, fazenda e paisagem.
Sinergias
Aumentar a interação ecológica positiva, a sinergia, a integração e a complementaridade entre os elementos dos agroecossistemas (animais, culturas, árvores, solo e água).
Diversificação econômica
Diversificar as receitas agrícolas, garantindo que os pequenos agricultores tenham maior independência financeira e oportunidades de agregação de valor, permitindo-lhes responder à demanda dos consumidores.
Agroecologia e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável exige uma nova abordagem agrícola para garantir alimentos suficientes, seguros e nutritivos, respeitando os direitos humanos. Os membros da FAO têm uma visão comum para alimentos e agricultura sustentáveis, e a agroecologia é uma resposta fundamental para orientar a transformação sustentável de nossos sistemas alimentares.
A implementação de princípios enraizados na agroecologia promove 15 dos 17 ODSs.

Sem pobreza
A agricultura familiar, a pecuária e a pesca e aquicultura artesanais proporcionam meios de subsistência para muitas das populações rurais pobres do mundo. As abordagens agroecológicas ajudam os produtores de alimentos a reduzir os custos de produção, o que se traduz em maior renda, estabilidade econômica e resiliência.
Fome zero
Os sistemas agroecológicos otimizam o uso de recursos e conhecimentos locais e renováveis. Isso permite que os sistemas de produção agrícola aproveitem os benefícios do ecossistema, como controle de pragas, polinização, saúde do solo e controle da erosão, ao mesmo tempo em que garantem a produtividade. A conservação e o uso sustentável da biodiversidade levam a serviços ecossistêmicos robustos e à agricultura sustentável.
Boa saúde e bem-estar
Ao minimizar o uso de insumos agroquímicos potencialmente nocivos, a agroecologia reduz os efeitos negativos da agricultura sobre a saúde humana e ambiental. Ao relocalizar as dietas, a agroecologia pode ajudar a informar dietas sustentáveis e saudáveis.
Educação de qualidade
A agroecologia depende do conhecimento adaptado aos contextos locais pelos produtores de alimentos e outros atores. Ela fornece conhecimento relevante e prático por meio do empoderamento de sistemas entre pares, aprimorados com o conhecimento de cientistas formais.
Igualdade de gênero
As mulheres têm um papel central na agroecologia. Elas são frequentemente guardiãs de dietas saudáveis e tradicionais e são atores fundamentais em sistemas alimentares sustentáveis, desde o lar até o campo, o mercado e além. A agroecologia tem o potencial de promover os direitos, a autodeterminação e a autonomia das mulheres.
Água potável e saneamento
A agroecologia previne a poluição e a contaminação das águas superficiais e subterrâneas. Ela promove práticas eficientes no uso da água, melhora a retenção de água no solo e valoriza culturas adaptadas localmente que requerem menos (ou nenhuma) irrigação, permitindo um armazenamento, recuperação e recarga mais seguros e sustentáveis dos aquíferos.
Trabalho decente e crescimento econômico
As abordagens agroecológicas criam novas oportunidades de emprego rural decente para jovens e mulheres. O aumento da resiliência dos sistemas de produção agroecológicos ajuda a manter melhor os empregos existentes, apoiando os meios de subsistência e as comunidades rurais.
Redução das desigualdades
A agroecologia dá prioridade aos setores mais marginalizados e vulneráveis da sociedade: mulheres rurais, jovens, agricultores familiares e povos indígenas. A agroecologia tem o potencial de abordar a desigualdade do sistema alimentar, fornecendo soluções locais para contextos e territórios específicos.
Cidades e comunidades sustentáveis
Ao promover uma abordagem territorial ao desenvolvimento, a agroecologia incentiva o desenvolvimento de planos integrados para o desenvolvimento urbano e rural, com as áreas urbanas reconhecendo os múltiplos benefícios que as paisagens sustentáveis podem proporcionar e reconectando produtores e consumidores para encurtar as cadeias de valor e aumentar a resiliência.
Consumo e produção responsáveis
A agroecologia promove a diversificação para alcançar dietas sustentáveis e saudáveis e segurança alimentar e nutricional. Os sistemas alimentares agroecológicos provaram, em muitos contextos locais, ser fornecedores exemplares de dietas nutritivas, saudáveis e adequadas de alta qualidade, preservando e promovendo as tradições alimentares locais e o conhecimento tradicional. Ao encurtar as cadeias de valor, a agroecologia contribui para a redução das perdas e do desperdício de alimentos.
Ação climática
A agroecologia ajuda a mitigar as mudanças climáticas e seus impactos. Ela reduz a emissão de gases de efeito estufa, promovendo sistemas de produção integrados que são menos dependentes da energia proveniente de combustíveis fósseis e que armazenam e fixam carbono. Ao promover sistemas de produção diversificados e integrados, a agroecologia facilita a resiliência e a adaptação às mudanças climáticas.
Vida abaixo da água
Nos sistemas aquáticos, a Abordagem Ecossistêmica da Pesca (AEP) e da aquicultura (AEA) demonstra uma abordagem agroecológica. A Abordagem Ecossistêmica garante que a gestão dos recursos vivos aplique uma abordagem integrada à pesca dentro de limites significativos, levando em consideração o conhecimento e as incertezas nos componentes bióticos, abióticos e humanos.
Vida em terra
A agroecologia trabalha com comunidades locais, produtores de alimentos e outros atores para prevenir a degradação da terra e restaurar áreas degradadas. A agroecologia ajuda a conservar, usar de forma sustentável e valorizar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos que sustentam a produção de alimentos.
Paz, Justiça e Instituições Fortes
A agroecologia apoia organizações de produtores fortes e inclusivas que permitem o compartilhamento e a cocriação de conhecimento, solidariedade, representação de suas preocupações no nível político e governança responsável.
Parcerias
A ampliação da agroecologia exige maior cooperação entre setores produtivos, atores sociais e países.
*FAO
História de Kelle Gregory
A Ghanaian Farmer’s View of Agroecology (Visão de um agricultor de Gana sobre a agroecologia).
Financiada em parte pelo Agroecology Fund, a CIKOD é uma afiliada de nossa parceira de longa data, a Groundswell West Africa, e se aliou a uma coalizão de ONGs de Gana para bloquear a legislação pró-OGM, permitindo que os agricultores mantenham o controle sobre suas sementes. Para expandir sua influência, a CIKOD uniu-se à African Food Sovereignty Alliance, por meio da qual agricultores organizados em toda a África buscam influenciar a política da União Africana e os planos de clima e biodiversidade dos governos nacionais, à medida que expandem e disseminam a agroecologia em todo o continente.
